Flora da Madeira



Flora da Madeira

Flora da Madeira

Acompanhando os delegados de Alcochete ao XI Congresso da ANAFRE (Associação Nacional de Freguesias), que se realizou no Funchal em 28 e 29 de Março último, tive a grata oportunidade de revisitar a encantadora ilha da Madeira.

Foi deveras interessante comparar o que agora me foi dado observar com o que vi nas duas visitas anteriores, a primeira há 25 anos e a segunda, algo fugaz, há uma década.

O que achei mais positivo foi o extraordinário incremento de infra-estruturas, especialmente as que se referem às vias de comunicação. Hoje é muito mais fácil percorrer este território super montanhoso. As distâncias ficaram subs-tancialmente encurtadas face a um sistema de vias rápidas, englobando centenas de viadutos e túneis, alguns com vários quilómetros de extensão. Notáveis são também os equipamentos desportivos, museológicos e sobretudo, turísticos. Não há dúvida que, nos últimos anos, foram aqui investidas grandes somas e, em consequência, o número de visitantes dilatou-se. O turismo é, de longe, a principal actividade económica da região.
Refiro, como aspectos menos positivos, o grande aumento de viaturas a circular e a falta de estacionamentos, mormente, na cidade do Funchal.



Mas é a botânica a especialidade que mais me cativa neste espaço macaronésico e por isso, tentei aproveitar o máximo, observando a ve-getação, visitando cuidados jardins e tomando notas no meu diário de campo. Só tenho pena de me ter minguado o tempo para as indispensáveis caminhadas na espectacular floresta laurissilva que, como se sabe, é património mundial classificado pela sua biodiversidade florística, endemismos e grande beleza paisagística.

Na Região Autónoma da Madeira existem mais de 1200 espécies botânicas (fora os cruzamentos híbridos), sendo 123 endémicas do território e 69 endémicas da Macaronésia, classificação bio-geográfica que engloba os arquipélagos das Canárias, dos Açores e de Cabo Verde. Esta flora exuberante e diversificada, resultado de uma privilegiada situação geográfica, relevo acentuado, constituição química do solo e amenidade climática ocasionada pela corrente do golfo, constitui uma relíquia do período terciário. Há aqui espécies de quase todo o mundo, incluindo plantas que existiam nas floras primitivas europeias e africanas e que se extinguiram por efeito das glaciações e de sucessivas alterações climáticas. Por outro lado, o isolamento do território, no meio do Atlântico, propiciou especializações de processos evolutivos que maturaram durante milénios.
O interesse científico da flora madeirense e a espantosa sociologia florística que, a cada passo, se depara, incute em todos os amantes da botânica uma sensação de euforia e paradoxalmente, de contido respeito.
Como é bem de ver, não se pode transmitir em poucas palavras o que se apreende e se sente numa digressão tão apaixonante. Apenas irei destacar, sem rigores científicos (porque não vem ao caso, nem para tal possuo conhe-cimentos), alguns aspectos das visitas locais que efectuámos, tentando estimular a curiosidade de futuros visitantes.

Jardim Botânico
da Madeira
É, sem dúvida, um dos mais interessantes jardins temáticos do mundo, pela sua grande diversidade e beleza. Ocupa uma área de oito hectares muito bem aproveitados, que acolhe cerca de quatrocentos milhares de visitantes por ano. Trata-se de um autêntico mostruário natural da flora mundial, porque só uma ínfima parte se encontra em estufas. Realço as secções que mais me impressionaram:

Plantas indígenas
Ficaram-nos na retina os vistosos massarocos (Echium candicans), a urze-molar (Erica arborea), os gerâneos (Geranium maderense), o robusto til (Ocotea foetens), o vinhático (Persea indica), o barbuzano (Apollonias barbujana) e as demais lauriáceas.
Arboreto
Árvores de todo o planeta com porte impressionante.

Suculentas
Cactos, aloés, eufórbias e companhia. Recordo, em particular, aquele arbusto espi-nhoso de flores vermelhas que dá pelo nome popular de "mira-mira-não-me-toques" (Euphorbia millii).

Cicadales
Espantosa colecção de cicas, plantas gimnospérmicas arcaicas surgidas há 200 milhões de anos.

Topiária
Árvores e arbustos podados, formando esculturas de animais e objectos.

Jardins coreografados
Engenhosa montagem geométrica com dese-nhos proporcionados por plantas de várias cores.

Plantas agro-industriais
Tintureiras, fibrosas, oleosas e todas as outras plantas que facultam saborosos alimentos. Frutas já conhecidas mas também exóticas, como a jabuticaba, a sapota, a carambola, o tamarindo, a macadamia, a fruta-pão, o mangostão, o araçá, a pitanga.
Apaixonei-me deveras pelas pitangueiras (Eugenia uniflora da família das mirtáceas) e seus frutinhos alaranjados. Quando abandonei o Jardim, verifiquei que muitas vivendas tinham destas árvores debruçadas para o exterior e fui colhendo e comendo as deliciosas bagas, enquanto descia.
Aproveito para recordar o curioso texto que recolhi, resumindo o percurso tormentoso do linho que "foi semeado, arrancado, ripado, curtido, secado, fiado, ensarilhado, meado, cozido, corado, dobado, novelado, urdido e tecido".

Plantas aromáticas
e medicinais
Constituem uma autêntica perdição para quem gosta destas coisas. Todavia, os nomes populares são, por vezes, bem diferentes dos das plantas similares que existem no continente, o que pode criar confusões.
Muito apreciadas são as macelinhas vendidas aos molhinhos no Mercado do Funchal.
Em Santana, depois de bem almoçados, a dona do restaurante brindou-nos com anonas e troços de cana-doce para chupar e conduziu-nos depois a uma produção artesanal de aguardente de cana. Lá, provámos uma especialidade, quase milagrosa, aplicável para todas as maleitas - uma bebida confeccionada com aguardente de cana, mel de abelhas e um infuso de trinta plantas medicinais.
Quando atravessámos o Paul da Serra, vimos, no meio dos omnipresentes agapantos que ladeiam as estradas, vários cartazes a anunciar o azeite-de-louro, extraído da baga da Laurus azorica. Parece que é remédio eficaz para o reumatismo, a má circulação, os males de estômago, da garganta e do fígado. Tem até fama nos tratamentos da gangrena e do tétano.

Jardim Palheiro Ferreiro
Talvez ainda mais belo que o Botânico, este paradisíaco (e caro) jardim privado, extasia-nos pela profusão de belas flores. Umas são oriundas da província do Cabo (África do Sul), outras da Ásia, outras da América tropical, em cons-tante competição. As cameleiras são omnipresentes nas agradáveis veredas que se estendem nesta propriedade, situada a 500 metros acima do nível do mar.
Jardim Orquídea
Trata-se de um admirável cultivo especializado, pertencente a uma empresa austríaca, fundada nos tempos do faustoso império austro-húngaro.
A visita deste espaço constitui um exercício de aprimoramento dos sentidos e um verdadeiro bálsamo para o espírito. Saímos daqui bem dispostos e em paz com o nosso íntimo e com o mundo. Afinal, a beleza tem esse condão maravilhoso.
O jardim é dedicado aos especialistas das orquidáceas e contém um manancial de espécies de todos os tamanhos, feitios e cores. Só visto!

É também um local privilegiado para se aprender todo o processo de cultivo e desenvolvimento das plantas mais sofisticadas do mundo. Anote-se que algumas necessitam de doze anos para produzirem a primeira flor.

Muito mais haveria que ver e descrever nesta ilha, em que 75% da sua superfície é área protegida, sendo uma referência mundial para bió-logos e amantes da natureza. Saibam os seus naturais e visitantes preservar o que de bom existe e assim transmitir aos vindouros um legado assaz precioso.