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Estes versos fazem parte daquela canção
muito linda, denominada "Gaivota", que visava
enaltecer os valores da liberdade reconquista-
da em 25 de Abril de 1974. O texto é extra-
ordinariamente belo e, de entre outras lindas
imagens, marcou-me aquela do "grito verme-
lho". Creio que me compreendem.
Há dias, tive a honra de assistir à inauguração
do Pólo de Animação Ambiental das Hortas e
do Pinhal das Areias, espaços com imenso
potencial para aprofundar conhecimentos,
"curtir" lazeres e aprender a amar a natureza.
Creio que o acordo firmado entre o Instituto
da Conservação e da Biodiversidade, o
Freeport e a Câmara Municipal de Alcochete,
muito valoriza o concelho e proporciona
excelentes condições de trabalho para a sensi-
bilização ambiental das populações. É claro
que a cerimónia decorreu no Sítio das Hortas,
onde se acham edificadas algumas estruturas
polivalentes para acolher os visitantes e con-
cretizar iniciativas.
Depois do moscatel, dos pastéis de bacalhau e
das tradicionais fogaças, muito poucos se dis-
puseram a percorrer o parque, agora
entregue ao município pelo Freeport, com
cerca de 12 hectares, a que chamam Pinhal
das Areias.
E foi pena que o Sr. Secretário de Estado do
Ambiente e os restantes convidados não
tivessem tempo para efectuar um percurso
pedestre no citado espaço público. Ficariam
então com mais consciência do que falta ainda
fazer para valorizar aquela interessante área
classificada. Vimos que foram efectuados
alguns trabalhos, nomeadamente a poda dos
pinheiros, a limpeza do matagal com arranque
de ervas e arbustos (talvez em demasia) e a
colocação de aparelhos para um circuito de
manutenção, mas falta ainda fazer muita coisa.
Eis que no meio daquele terreno lavrado,
surge, quase por encanto, uma papoila florida
que tinha sobrevivido à "limpeza". Lembrei-me
então daquele "grito vermelho" da canção e
decidi descrever e comentar uma planta que,
provavelmente, toda a gente conhece.
Esta papoila, denominada vulgar, para não se
confundir com outras papoilas da grande
família das papaveráceas, possui o nome cien-
tífico de Papaver rhoeas L ("rhoeas" vem do
grego e significa vermelho).
É originária da Ásia e da região mediterrânica
e floresce na Primavera. Contudo, no nosso
país de clima suave e crescentemente aqueci-
do, é possível encontrar papoilas floridas em
todas as épocas do ano, como aquela que
vimos "a gritar" em pleno Fevereiro.
Apesar da sua exuberante aparência, é uma
planta anual muito frágil que não resiste aos
herbicidas. Mesmo assim, lá vai sobrevivendo,
já que dispersa uma quantidade apreciável de
pequenas sementes.
Chega a atingir 80 cm de altura, tendo caule
erecto e piloso com látex esbranquiçado. As
folhas são recortadas formando lóbulos trian-
gulares. Compridos pedúnculos sustentam os
botões florais virados para baixo. Mais tarde,
quando desabrocham, surgem vistosas flores
vermelhas com quatro pétalas, tendo na base
uma mancha negra. O fruto é uma cápsula
ovóide cheiinha de sementes.
A planta é medicinal mas, em mezinhas
caseiras, só devemos usar as pétalas. O resto
da planta é levemente tóxica por conter
alcalóides e por isso deve ser destinada ape-
nas a fins laboratoriais.
As pétalas são tão frágeis, que só podem ser
secas uma a uma, a temperaturas não superi-
ores a 35 graus, conservando-se depois em
lugares com pouca luz.
Servem para preparar infusões destinadas a
males de garganta, bronquites, tosses, nervo-
sismo e favorecer o sono.
Entre as propriedades da papoila-vulgar (não
confundir com as do ópio que são bem
maiores e geralmente de cor branca), desta-
cam-se a de ser emoliente, sudorífica, peitoral,
sedativa e anti espasmódica.
A infusão deve ser preparada deitando duas
colheres de café de pétalas secas por chávena
de água quente (não é preciso estar a ferver).
Por fim, refira-se que as sementinhas são
actualmente usadas em culinária, misturadas
na massa do pão e dos bolos.
FITOTERAPIA
Por: Dr. Miguel Boieiro
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Papoila-vulgar
Uma papoila crescia, crescia ...
Grito vermelho num campo qualquer
Como ela, somos livres, somos livres
de crescer ...